SOBERANIA DA FUTILIDADE
O sofrimento é a soberania única com que cada um de nós insiste em martirizar as bases da existência.
Terias a mesma força para te matares por uma ideia que não te pertence? Sabemos como engolir em seco as palavras que proferimos e que acreditamos não terem peso? Os meus pêsames.
Não és melhor por seres contido e modesto. Não és melhor por seres alto e revolucionário. Se não acaricias a calçada com a tua testa de ferro, és igualmente fútil. Bate com mais força, ainda não se ouve o cair do pano. A performance tem de continuar porque ganha quem falar mais alto em nome dos restantes.
Resta saber do pouco que sabes tu. Gasta a raiva que tens de ti mesmo nos outros. É melhor se fores igual a todos os outros atores. O pano ainda não caiu, só tu podes continuar.
Que amor próprio supérfluo, que falta de coragem temos para acordar todos os dias. Porque é que todos temos medo de admitir o que nos define? A cobardia coletiva é a doença operária, já não são atores, são peças de betão. Fábricas de papel miudinho onde a única leveza está nos crânios que coabitam em pares que só refletem e ampliam aquilo que eles próprios são. Magoa os teus amigos, serás melhor amanhã se ferires as suas fraquezas, pois elas são as tuas também.
Se te escapa a compreensão, sê cruel, destrói o próximo pois é bem mais fácil discutir com um morto as opiniões ainda trémulas dos vivos. Estamos cada vez mais perto de ser deuses à medida que nos afundamos numa solidão absoluta. Ninguém cede coisa alguma, expecto do amor que se tem por corpos alheios: ai de alguém seja ousado a amar o seu.
Mais um leilão. O próximo lance é um coração vazio. O leiloeiro elucida os licitantes de que está partido porque o seu proprietário investiu no soberbo ato de amar alguém quando não se amava a si próprio. Quantos mais, melhor. Quanto mais se vê disto, maior valor se tem. Quem dá mais?
Podíamos estar a noite toda, aqui mesmo, sentados no escuro dos nossos ecrãs a dar exemplos ou calúnias do que manda o estado único desta triste realeza, porém, o pano caiu e o espetáculo tem de continuar.
Não compreendes? Claro que não: que futilidade seria ser-se inteligente e ainda assim saber de que tanta gente se perde por não saber no que se deve perder.